bombazzine
Agora em versão ferrugem. Liberdade, conforto e estilo. Um blog a favor de joelheiras e cotoveleiras, porque a protecção também é importante. Coçado, mas duradouro e com rendas nas bainhas.
quinta-feira, outubro 09, 2008
sexta-feira, julho 04, 2008
Eles e elas que falem...
Para sabermos quem são e para que, finalmente, todos e todas possamos dizer o que achamos realmente disto.
Por exemplo, uma senhora de bem como esta, acha que as famílias servem para a procriação. E nós a pensarmos que ter uma mulher candidata a primeira-ministra era sinal de progresso.
É bom que o diga, podem crer. É bom que estejamos todos e todas preparados para dizer o que é realmente a nossa família ou ainda o que pode ser. Como por exemplo esta outra mulher.
Para sabermos também em quem votar.
terça-feira, junho 03, 2008
sexta-feira, maio 16, 2008
sair do armário, essa tarefa diária
Amanhã é Dia Mundial da Luta contra a Homofobia.
Sinto-me duplamente envolvida nesta questão - estou dos dois lados da barricada. Mas é esse, penso eu, o significado de luta.
Para amanhã, para todos os dias, desejo viver sem medo, ser livre, ser feliz. É uma boa razão para lutar. Mesmo que seja comigo própria.
segunda-feira, março 31, 2008
está de volta
Na semana em que está em Portugal e lança o novo disco "Maré", convém mencioná-la. Adriana Calcanhotto, aqui noutras andanças (ainda não há nada novo no youtube, é pena) e um pouco desafinada talvez da nervoseira, com a Bethânia. Numa das suas canções mais memoráveis. Vale a pena ver...
segunda-feira, março 24, 2008
Passar a vida à espera de uma buzinadela
Vem do Líbano e leva-nos para algures em Beirute. Mulheres tão bem retratadas, com tanto humor e verdade, com uma universalidade espantosa. Os rituais e os costumes são diferentes, mas não há nada muito diferente nas expectativas e emoções destas libanesas. Cheio de cor, beleza e riso, a festa aí está. A verdadeira festa da mulher.
A ver, para nos reconhecermos, Caramel de Nadine Labaki.
sábado, março 08, 2008
o mundo feminino
Hoje é o Dia Internacional da Mulher. Em 2008, ainda se ouvem os tais comentários habituais a questionar sobre a necessidade de um dia destes. Como ouvi hoje um senhor que ia comprar flores para a “namorada”, que perguntava à florista em tom gozão se havia um dia do homem, enquanto ia soltando frases romântico-pastoris como “nós sem as mulheres não éramos nada”.
A primeira resposta para o senhor estava mesmo à sua frente: o valor comercial do dia. Já assistimos há algum tempo a este fenómeno de despolitização de um dia ainda (e durante muito tempo parece-me) tão necessário. Dar e receber flores nunca fez mal a ninguém, mas quando acontecimentos como este tentam ser protagonistas da “mensagem” deste dia, exortando o “mundo do feminino”, com os seus tratamentos de beleza, a última tendência da moda, os conselhos para a maternidade, as melhores receitas e ainda dicas para o sexo, algo está intrinsecamente podre. Não tenho nada contra tais temas, se pudesse passava todo o santo dia no spa (pronto, é exagero, mas é para dar mais ênfase à argumentação) e quem me dera surpreender diariamente tanto na cozinha como na cama. E vai-se a ver esta é mais uma tendência do capitalismo – há mais empowerment de um determinado grupo social quanto maior for o seu poder de compra e, vá lá, já uma minoria de mulheres que tem capital social.
Mas o “mundo do feminino” está longe de se restringir ao simpático enclave criado este fim-de-semana no Centro de Congressos de Lisboa. Está à porta de casa, dentro de casa, nos empregos, nas prisões... e isto só para falar em Portugal porque, se formos ao resto do mundo, feel woman não uma feel good sensation - é motivo de ódio, violência, diminuição, discriminação, ausência de direitos sociais e políticos. A nível global, nascer mulher é ainda a maior das fatalidades. E não são as "coitadinhas do 3ºmundo", somos nós, nós todas que estamos lá.
Ontem, sairam duas notícias no Público sobre a "nossa" realidade, a portuguesa. Uma enunciava aquilo que já todos ouvimos centenas das vezes: que as mulheres recebem muito menos que os homens com a mesma qualificação, que continuam dependentes financeiramente em muitos casos dos seus companheiros, alimentando esta sociedade viciada no poder fálico. Ao sistema do feel woman não deve preocupar muito, porque sabe-se lá os homens eventualmente abrirão os cordões à bolsa para "aperfeiçoar" as suas esposas. Outra anuncia o inimaginável: as reclusas em Portugal não têm direito a visitas conjugais, talvez porque se calhar só os homens terão desejo sexual, vá necessidades.
São apenas duas notícias, a que poderíamos com certeza acrescentar dezenas só deste cantinho do mundo civilizado. Há um Dia Internacional da Mulher, porque milhares, milhões provavelmente, de mulheres lutaram ao longo de séculos e milénios por um mínimo de igualdade entre géneros. Porque, ainda nas primeiras décadas do século XX, eram negados às mulheres os direitos de votar, de exercer uma profissão, de ser autónoma na sua vontade, numa palavra o direito à liberdade.
Podem criar todos os produtos dedicados à figura feminina, venham eles!, podem fazer o que quiserem todo o ano, mas raios parta honrem este dia, porque ele tem um propósito. E não é um fácil. É o mínimo que podemos fazer por todas as mulheres e todos os homens que lutam e lutaram por uma sociedade melhor e mais justa.
segunda-feira, fevereiro 25, 2008
Estamos por aqui
Finalmente, hoje no Público, pode ler-se qualquer coisa sobre uma realidade que anda por aí. Tão difícil de nomear e cujas principais dificuldades estão no silêncio e no vazio legal. Com uma criança, as respostas são diárias e o desafio é universal - no concreto e no particular, a luta de uma "madrinha" (como nos foi conveniente chamar-me) é a mesma de que qualquer outro progenitor. O reconhecimento legal e social é que tarda.
A realidade já está aí, para cada vez mais pessoas.
Quanto tempo até a legalidade chegar?
sexta-feira, fevereiro 15, 2008
Pós-Valentim
Sem dúvida que apoio iniciativas como as que divulguei no post abaixo. Acho-as fundamentais para, de facto, começar a derrubar estereótipos e, ao mesmo tempo, conferir a cada pessoa um motivo de reflexão e/ou identificação. É fundamental criar novos modelos inclusivos que espelhem a diferença na sociedade.
Passado um dia e expresso o meu apoio, o que me pergunto é por que é que uma boa intenção é tão mal realizada? A campanha que esta associação criou (a favor do dia de namoradas e de namorados - portanto gays) é, igualmente, a perpetuação de um estereótipo. Não temos todos de ser bonitos nem femininos, nem nada, mas teremos de perpetuar aquele tipo de imagem? Não deveremos saber para quem falamos? Para ser eficaz, uma campanha destas devia quebrar realmente com os modelos, e esses incluem os modelos estereotipados do que é um gay ou uma lésbica.
Serão poucas as pessoas que se sentirão identificadas ou reflectidas naquele beijo, mas a forma como foi executado nos cartazes afasta ainda mais as pessoas, mesmo as que não são homofóbicas. Não temos de ser duros ou feios para nos projectarmos, não precisamos andar de mão dada na rua zangadas/os para fazer do nosso afecto público.
No fundo, o que me chateia é que uma boa ideia seja comprometida por uma falta de visão de comunicação. Saber comunicar é encontrar uma forma de a mensagem ser transmitida com eficácia - e isto não significa nenhuma concessão à ideia, pelo contrário é ser-lhe fiel e até eventualmente radicalizá-la.
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
S.Valentim para ti e para mim
"Por ocasião do seu 6º aniversário, a não te prives - Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais acaba de lançar a sua nova Campanha do Dia dos Namorados e das Namoradas. Porque o amor se faz de muitas formas, basta de modelos heterossexistas e heteronormativos que excluem e marginalizam. Com o apoio do IPJ, Coimbra acordou no dia de S. Valentim mais colorida..."
Mais informações e campanha aqui.
quinta-feira, janeiro 10, 2008
Ciência fútil (ou fatal)
Ao ler esta notícia sobre moscas da fruta machos que se embebedam e ficam gays, não sei mesmo por onde começar. Bem sei que a minha formulação não é lá muito científica, mas xiça, que raio de investigação é esta?
O álcool faz a mosca da fruta gostar ainda mais de fruta, a pontos de cortejar indiferenciadamente machos e fémeas, perdendo quaisquer inibições e ficando muito melhor na cama. Eu acho estranho que um estudo científico consiga avaliar a performance sexual entre as moscas (tal como comentou aliás uma leitora na notícia online)... será que a outra mosca zune com mais intensidade, evidenciando um prazer crescente? Pois não sei, mas os cientistas lá saberão.
Isto tudo para dizerem que “(...) a sexualidade não é apenas determinada pelo desenvolvimento do organismo mas também influenciada por factores exteriores como o álcool” e quem o afirma é "o cientista responsável por esta descoberta, Kyung-An Han, professor de biologia em Penn State". Segundo a notícia, abre-se caminho para descobrir eventuais factores exteriores que determinam a sexualidade masculina (não sei por que não deram um copito às fémeas - até há discriminação nisto!). Ora aí está, estes investigadores estão a ver se encontram a causa do problema e a eliminam.
Nas garrafas de vinho, whiskey, cerveja, vai poder ler-se "Beber álcool pode provocar súbita vontade de se enrolar com qualquer pessoa independentemente do sexo" ou, em aguardente, "Bebes isto e talvez fiques larilas".
O que é que se passa com esta gente que anda a gastar dinheiro a estudar moscas para provar teorias acerca da sexualidade humana? Quem estuda, pronto, tem panca! Mas quem paga, está a pensar em quê? Há uma resposta paranóica: querem descobrir a causa da homossexualidade para saber como limpá-la. E depois há um outro tipo de respostas, desde o senhor Kyung estar à procura de uma resposta desde aquela noite há muitos anos em que se embrulhou com um amigo, ou, noutro contexto mais comercial, desenvolver bebidas que não provoquem gayzice para homofóbicos.
Há muitas possibilidades. Inevitavelmente todas estúpidas. Se estiverem a ver outra, por favor partilhem.
P.S.: Em Portugal, infelizmente, há machos que, quando bebem, têm tendências bem mais violentas e nefastas para aqueles que os rodeiam. Será que as moscas também têm resposta para isso?
segunda-feira, novembro 26, 2007
Boas notícias
A campanha causou celeuma e acabou por ser suspensa.
Mudaram o discurso de "És hetero?" para "A verdade é que és livre de escolher. És livre de sair e de te divertires com quem tu quiseres. És livre de te assumires como quiseres". Acho que é, sem dúvida, uma vitória. Mesmo que, eventualmente, seja um bem sucedido jogo comercial.
Pode ser que agora compreendam que há coisas que ofendem, mesmo quando nem sequer pensam nisso. É bom que comecem a pensar.
Etiquetas: orgulho
quarta-feira, novembro 21, 2007
Se eu fosse...
Se eu fosse hetero, não teria orgulho nenhum nesta campanha. Pelo contrário, teria vergonha e indignar-me-ia. Confundir heterossexualidade com brejeirice parece ser uma mania destes senhores.
Sendo gay, sinto vergonha e indigno-me à mesma. Pois não há nada mais chocante do que ver gente a promover e a viver à pala do preconceito.
Todas as orientações merecem melhor que isto. Para todos podermos sentir verdadeiro orgulho e livrarmo-nos do estigma.
quarta-feira, outubro 31, 2007
shake it
A propósito dos states e de sentimentos contraditórios face a povos e culturas, aqui fica um bom sinal: um candidato NEGRO a candidato a presidente dos EUA a dançar com jeito com a mais famosa LÉSBICA do planeta, na televisão.
Vamos a ver o que esta malta nos reserva nos próximos tempos. Por agora, continuem a dançar.
(mas continuo a preferir uma presidenta!)
À 16ª é de vez?
Mais uma vez, a décima sexta, a Assembleia Geral da ONU aprova por esmagadora maioria uma resolução exigindo o fim do embargo dos EUA a Cuba (ler artigo). O embargo já dura há mais de 40 anos, desde 1962, e é desde 1992 que a ONU pressiona os EUA para o levantarem. Obviamente a pressão não tem funcionado e os "americanos" continuam a fazer a vida negra aos cubanos, americanos desviantes.
A questão de Cuba não é simples. Mas a do embargo é: estúpido, prepotente, perigoso e anti-humano.
Mas o embargo tornou-se mais que uma questão política. Tornou-se uma questão social e cultural. 40 anos de embargo definem inevitavelmente um povo, da mesma forma que o seu regime. Se o regime é mau, o embargo é igualmente mau ou pior, tendo o mesmo peso na formação do povo cubano. Faz deles resistentes. Se, em primeiro lugar, são resistentes ao regime, têm de sobreviver ao embargo. Sobreviver à falta de recursos num país não necessariamente pobre. Imagino que um cubano odeie em primeiro lugar os EUA. Compreendo e simpatizo com isso, apesar de continuar a defender outro regime para Cuba.
Só que a verdade é que ninguém sabe exactamente o que poderia ser, ou mesmo o que é, o regime cubano, pois a ele estará sempre (?) associado o embargo. E continuaremos a reflectir sobre o bom e o mau do regime, sem nunca poder reconhecer o "bom" que há neste embargo - essencialmente porque ele não existe.
O estúpido braço de ferro não tem fim. O problema é que não se trata de um braço de ferro, mas quase de uma luta de honra. O Estado e o povo oprimidos lutam pela sua dignidade. Lutam pela dignidade de viverem à sua maneira (ainda que seja uma maneira coagida) perante um opressor muito mais poderoso, que pretende "matá-los" da forma mais fria, pela humilhação, pela recusa do "direito à admissão" enquanto povo.
No mundo, há casos muito mais brutais contra os direitos humanos que Cuba. Mas não estão à porta dos Xerifes. E nesses casos, não há lado "bom", não há educação ou saúde ou desporto. Não há a inteligência e produtos de uma cultura. Cuba é profícua, é criadora, é dinâmica. Cuba é uma ameaça real, porque aponta um caminho que em mais lado nenhum esteve tão perto de ser um regime "bom". Obviamente que está longe de ser bom, não sou defensora do regime. Mas sou claramente anti-embargo de pretensos moralistas dos bons costumes que espalham acções anti direitos humanos pelo mundo e no seu próprio país.
Mais uma vez, pela 16ªvez, a Assembleia Geral da ONU reprova. Na Casa Branca, devem sacudir a mosca da impertinência com desagrado, afastando a dúvida sobre essa política tão absoluta e déspota. O povo cubano mantém a dignidade.
sexta-feira, setembro 28, 2007
Elogio à inflexibilidade
O prémio já era conhecido há algum tempo, João Pacheco ganhou o Prémio Gazeta Revelação, atribuído pelo Clube de Jornalistas, por reportagens que escreveu para a revista Pública. A entrega de prémios foi, no entanto, na passada terça-feira e a cerimónia teve como convidado o "nosso" Presidente da República.
Foi perante ele e "restantes convidados" que João Pacheco dedicou o seu prémio a todos os jornalistas precários. No seu discurso, elucidou o público sobre a situação profissional precária que vive, denunciando o que toda a gente sabe e vê - que a precariedade no trabalho é uma constante em Portugal, especialmente entre os jovens, e que o seu caso não é excepção. Fê-lo quando o bom-senso subserviente o aconselharia a ficar calado e a agradecer de mansinho. Fê-lo porque é "inflexível" nas suas convicções, algo muito menos comum que a flexibilidade reinante (que é como quem diz, a capacidade de engolir sapos).
O João evita dores de estômago e ganha em peito feito. Depois da sua entrevista em directo para o Jornal 2, até a jornalista Alberta Marques Fernandes se permitiu fazer um discurso político, evidenciando o direito constitucional ao emprego e sublinhando a situação comum da precariedade. O João fez muito mais do que a maior parte consegue fazer, usou um veículo seu para carregar uma série de gente. E fê-lo, como sempre, com dignidade e humor, sem paninhos quentes. A parte do dinheiro que recebeu (já que dividiu o seu prémio com os repórteres fotográficos) diz que servirá para pagar as dívidas à Segurança Social, fim que designou como "nobre", mesmo não tendo "rendimento fixo, nem direito a férias, nem protecção na doença nem quaisquer direitos caso venha a ter filhos".
Eu faço-lhe a vénia, como tem ele por hábito fazer. Parabéns, João! Bem hajas!
Para ler o discurso, podem clicar aqui ou de forma mais "oficial" também aqui. Vale bem a pena!
sexta-feira, setembro 21, 2007
A emancipação deles
A emancipação das mulheres já passou por um longo processo, já atravessou fases, já recolheu dividendos. Não parou, não estagnou, é ainda muito necessária e vital em muitos momentos e em muitas partes do mundo, não fosse dar-se o caso de estatisticamente o mundo estar inundado de números que justificam essa mesma emancipação. Falar em emancipação, hoje, é falar sobretudo em derrubar estereótipos, ultrapassar canônes sociais redutores e muitas vezes ameaçadores, que tanto podem variar entre a eliminação de práticas institucionalizadas de violência sobre as mulheres ou, simplesmente, aumentar o peso (na balança) das top-models. Na sociedade ocidental, capitalista sem freio, adepta do culto da beleza e do social, falar em feminismo implica falar de emancipação dos canônes veiculados pelo certo lifestyle trendy que nos vendem massivamente. Implica libertar-nos daquilo que a tv, jornais, colega do lado nos vociferam sem dó nem piedade, ou sequer consciência do que falam. Implica sobretudo libertar as nossas crianças de um certo tipo de socialização que nada tem a ver com integração na sociedade, mas apenas com sufocação de identidade na sociedade. Falar de feminismo, nesse sentido, é falar do processo de liberdade. E, por isso, para mim, não há feminismo, sem "masculinismo" (palavra bem feia e sem qualquer credibilidade).
O homem (com agá pequeno) está longe de estar livre dos estereótipos impostos, como se pode ver neste artigo do Público, que revela um estudo sobre o Papel dos Homens na Família em Portugal. Que homem, pergunto eu, será livre se ainda se considera como o pilar financeiro de uma família? Que homem será livre se não conseguir perceber o que quer para além do próprio facto de ser o "provedor" do lar? Se não for mais do que a imagem lançada por gerações e gerações, que liberdade é a sua?
Parte dos homens sente-se sem dúvida ameaçado pelo feminismo. Porque de alguma forma, pressente que a emancipação das mulheres pressupõe um combate contra ele e uma destruição das expectativas que poderá ter sobre a mulher. Mas a meu ver sente-se assim pelas razões erradas. O feminismo, como o vejo, é a favor do homem - só assim faz sentido. É a favor da libertação do olhar do homem sobre a mulher. E, por consequência, é a favor da liberdade do olhar do homem per si. Sem instrumentalizações dos antepassados. O homem pode sentir-se ameaçado, sim, porque provavelmente a emancipação de si próprio implica alguma destruição de si próprio ou de alguns pontos que tem como seguros na sua dita "virilidade". Mas o homem merece mais que ser viril. O viril vem-lhe com o pénis. Merece ser uma pessoa completa, com direitos que a sociedade já lhe reconhece e que ele ainda não sabe reclamar. O homem merece ser total. E para isso a mulher tem de ajudar, libertando-se também do olhar que tem sobre ele, superando esse olhar. Porque só assim seremos livres, homens e mulheres.
sexta-feira, julho 06, 2007
Contra-cultura Pop ou Pop in progress
Ontem fui pela primeira vez, aos trinta anos, a um festival de música (o Avante é muito mais que isso). À partida, um festival que tem no nome uma marca de cerveja promete, nem que seja uma ligeira (ou talvez não) ressaca no dia seguinte. Mas Scissors SIsters promete muito mais, uma vez mais, que a cerveja. E então lá fui eu assistir ao fenómeno, com convite no bolso.
Eu sou fã sobretudo de concertos com cadeiras confortáveis, sobretudo nas primeiras filas, sobretudo de música brasileira. Mas se há uma oportunidade de dançar, nunca a recuso. E esta era uma delas.
Cerveja na mão, atitude expectante e receptiva, estado físico geral bom ou razoável são as condições mínimas para entrar no espírito. Mas o importante talvez não sejam os concertos.
Vista geral - uma das coisas que salta à vista é a presença dos patrocinadores. O mercado impera, mesmo que ilusoriamente possamos pensar que estamos numa "cena alternativa". A quantidade de stands promocionais, com uma variedade estúpida de animações idiotas, é invejável. Talvez seja por isso que se têm estes nomes no cartaz, mas não há que enganar: além da música, um festival é um veículo para as marcas, um chamariz comercial, uma oportunidade para uma vez mais vender.
Vista detalhada - quando cheguei ao "recinto", começou o concerto de Gossip, que gosto q.b., mas que não ouço especialmente. Ora, esta banda (concerto brilhante, brilhante) tem uma vocalista gorda, mas gorda. Com uma voz e uma energia inacreditáveis, a sujeita é uma verdadeira guerreira da performance. A seguir, foram os TV on the radio, que pouco me dizem (aproveitei para comer e beber mais), que têm três membros negros, entre eles um vocalista e um baterista giraços como tudo. Logo depois, Scissors Sisters (nunca mais passam por Lisboa sem eu lá estar, garanto), com a sua atitude completamente queer, outrageous e debochada. Ora, temos, em linguagem corrente, uma gorda, um preto e uma bicha louca como vocalistas de algumas das principais bandas da noite. Se isto não é contra-corrente, não sei o que será. E não será por acaso que os Interpol, com o seu vocalista louro, hetero, depressivo, tenham tido uma prestação monótona e entediante (bem sei que não é a opinião geral).
Vista pessoal - as pop-stars podem ser verdadeiros motores da mudança de mentalidades. A Madonna e o George Michael são (a Madonna já foi mais) verdadeiros impulsionadores da emancipação sexual. Bono, Sting, Angelina Jolie, Lady Di e mais uma vez a Madonna dão a cara por causas humanitárias e ambientais a toda a hora (excepto a Di que ja foi ao ar e o Sting é um bocado parvo, mas pronto). "A gorda, o preto e a bicha" representam isso. Representam a contra-cultura (mesmo que seja comandada pelo mercado, não tenho ilusões) e a capacidade de invadir os lares conservadores (assumidos ou não) com figuras esteticamente desagradáveis para tantos e, mais importante, com estilos de vida fora da norma. Mas nem tudo são rosas, porque a devida distância que a estrela pop está dos seus fãs relativiza a imagem. Ou seja, uma estrela é excêntrica, não é real e não apela ao reconhecimento - é simplesmente um ser de outro planeta. Além disso, o público tende a normalizar e a integrar a sua diferença no seu modelo, como um sujeito que, tendo adorado Scissors Sisters, disse "eles têm aquela atitude toda queer, mas até não passaram das marcas", como quem diz "até se portaram bem para paneleiros". Ou o discurso genérico do "ela é gorda, mas é fantástica", como se à partida se esperasse menos da gorda. Ou o facto inequívoco de o preto ser um giraço ser muito mais relevante do que o branco ser giraço exactamente por ser preto, e isso ser muito mais exótico e atraente. Mas, ainda assim, "a gorda, o preto e a bicha" são fundamentais, por todas as gordas, pretos e bichas que há por aí, e por toda a luta contra o preconceito. Da mesma maneira que a Jolie é fundamental, porque mostra que boazona branca consegue ser uma "ganda maluca" e ao mesmo tempo andar a fazer campanhas humanitárias. Embora a tendência do público seja pensar que a puta virou santa (um pouco como a Madonna, aliás), como se não houvesse mais e mais ínfimas possibilidades.
Uma palavra final para o prazer de andar pelo recinto e encontrar amigos.
domingo, julho 01, 2007
Se a liberdade chega atrasada... abra-se a porta mesmo assim
Às vezes, morre uma personalidade pública e tenho uma reacção semelhante, do género: "ah, pensava que já tinha morrido". É um bocado difícil ficar consternada pela perda.
Uma criança de seis anos fica surpreendida quando alguém lhe diz que em Portugal homens não podem casar com homens, nem mulheres com mulheres. É um bocado difícil explicar como algo tão natural para ele possa ser proibido.
Tive, na última sexta-feira, o mesmo tipo de espanto quando soube da nova lei que reconhecia que crentes não católicos "passam a poder casar na sua comunidade religiosa sem ter que passar pelo registo civil". Ao que parece, só a Igreja Católica beneficiava dessa benesse, talvez pelos tratados e acordos (parece que se chamam concordatas a estes esquemas) entre Vaticano e este nosso Estado. Agora, crenças, ou melhor igrejas, que existam em Portugal há mais de 30 anos podem celebrar casamentos "válidos" sem recorrer passar pelo civil. As ditas "outras" confissões passam a ter "credenciais" suficientes para efectivar uma união reconhecida pelo nosso Estado.
De entre essas igrejas, conta-se a muçulmana e a judaica, com tanto ou mais tempo neste território como a católica, sofrendo apenas de uma distinção, talvez um pormenor: sempre neste território se tentou expulsá-los. Pois bem, a Inquisição falhou. Ainda os há, quem diria, assim como evangélicos e adventistas e vai-se a ver, não tarda nada, reinos de deus e manás.
Se pudéssemos apelar ao nosso coração cristão, sem passar pelo amargo peso da Santa Fé, já há muito tempo que esta medida estaria vigente. Como aliás pensei e daí o espanto. Ou nenhuma tem validade ou todas têm. Mas não! Só em Junho de 2007 se lembraram de expandir a liberdade religiosa ao sagrado sacramento chamado casamento. (Chamei-lhe sagrado sacramento? Peço desculpa, deve ser ainda da santa lavagem cerebral instituída.)
Às vezes, estamos numa festa animada e, distraídos, pensamos que o convidado especial já chegou e, quando nos aparece à porta, ficamos surpreendidos. Isso não é razão para não o recebermos bem. Pelo contrário, devemos recebê-lo ainda melhor, porque afinal ainda não tinhamos dado por falta dele.
Por isso, devemos regozijar-nos por esta lei tardia, sobre a qual não tinhamos nunca pensado e que em pouco afectará as nossas vidas, porque ela traz consigo um pouco mais de liberdade e orgulho. Afinal, muita gente deve ter lutado por ela, muita gente deve ter esperado muito tempo por ela. Para eles, mas por todos nós, devemos celebrá-la.
quinta-feira, maio 17, 2007
Parabéns! És gay! (ou o dia em que todos gostavam de ser gays)
Hoje é Dia Mundial contra a Homofobia. Para todos os que todos os dias dão um passinho a mais para sair cá para fora, para todos os que anulam a orientação sexual como factor discriminatório, é um dia bom. Especialmente porque é o dia que dá nome aos outros dias todos.
Ontem, foi dia de mandar coisas cá para fora. Uma delas é a proibição de os gays darem sangue, embora o Instituto Português do sangue tenha negado tal coisa. A verdade é que um homem que diga que é gay quando for doar sangue não é aceite. Diz que depende dos hospitais, para uns é fraquinho, mas aceitável, para outros é mau, mesmo mau, sangue do demo, antes sangue de barata. De qualquer modo, Gabriel Olim, presidente do dito instituto, diz "O que interessa é a tranquilidade e a segurança de quem vai receber o sangue. E os portugueses têm preconceitos.". Ora aí está uma frase que alguém numa posição importante de uma organização do Estado deve dizer. Os portugueses têm preconceitos e nós pactuamos com esses preconceitos mesmo que o sangue do mariconço seja bom e possa salvar a vida do preconceituoso de merda! Se calhar, a dar sangue, devíamos perguntar: "olhe desculpe, este sangue é para servir com ou sem preconceito?". É que, imagine-se um homofóbico receber um sangue abichanado... pode entupir aquilo tudo. Sabe-se lá do que é que ele vai passar a gostar.
Outra questão importante, não levantada ontem, é a da violência doméstica. Neste momento, está em Audição Parlamentar Pública a "reformulação do Art. 152º do código penal que enquadra a violência doméstica como crime punível com pena de prisão. As alterações propostas passam pela avaliação da intensidade do acto violento e não pelo nº de episódios violentos, bem como este novo texto contempla relações de casal de carácter hetero e/ou homosexual para além da sua continuidade no tempo. Deste modo a nova proposta de reformulação deste art. refere que é considerado crime qualquer acto violento intenso que ocorra no âmbito de uma relação amorosa em casais heterossexuais ou homossexuais ainda que tenha ocorrido uma só vez.". O próprio reconhecimento no texto da lei que existe algo a que se chama a homossexualidade é já um ponto positivo. Neste caso, é um duplo ponto positivo, uma vez que a violência doméstica também é um dos "charmes" que os portugueses gostam de calar. Pois, ainda bem que não nos vamos calando, que se vão dando contextos para coisas sempre caladas, amordaçadas.
A luta contra a homofobia é também uma luta contra a invisibilidade. Todos os dias e não apenas hoje. Obrigada a todos aqueles que todos os dias vão dando os seus passos. Obrigada a todos aqueles que combatem o preconceito mais fundo dentro de si, mesmo quando parece a coisa mais difícil do mundo. Aqueles que permitem que o amor vá vencendo a sua homofobia lentamente.
Orgulho-me de mim, mas orgulho-me deles e muito.

